SoluçõesMétodo CCPSXperienceClube da CompetênciaHub de ConteúdoA AraxEntrar na plataforma
Fale com a gente
← Todos os artigosEstratégia

Contratar quem já sabe ou desenvolver quem já está

A escolha entre buscar competência pronta no mercado e formar quem já está na empresa costuma ser decidida por hábito de gestor, não por critério. A teoria do capital humano oferece um critério.

Uma vaga estratégica abre e a primeira decisão nem sempre é sobre currículo, é sobre onde procurar. Buscar no mercado alguém que já sabe fazer parece a rota mais rápida. Formar internamente quem já está na casa parece a mais lenta e a mais incerta. Na maioria das empresas essa escolha nunca passa por critério explícito: é feita pelo hábito do gestor que abriu a vaga ou pela urgência do prazo, o que custa caro, porque as duas rotas têm estruturas de custo e de risco diferentes que raramente são comparadas de verdade.

Uma decisão tratada como preferência, quando é uma conta

“Prefiro contratar pronto” e “prefiro formar internamente” soam como posições pessoais, quase de temperamento de gestor. Tratadas assim, competem por opinião: quem grita mais alto na reunião de headcount decide. O problema é que comprar competência no mercado e desenvolvê-la internamente não são duas preferências equivalentes disputando gosto. São duas alocações de recurso com retornos e riscos diferentes, e a área que trata a escolha como questão de estilo perde a chance de decidir com critério o que decide de qualquer forma, com ou sem critério.

A teoria do capital humano, associada ao economista Gary Becker, dá um vocabulário útil para essa conta. Ela não resolve a decisão sozinha, mas explica por que ela nunca deveria ser trivial.

A distinção que Becker tornou central

Becker separou dois tipos de capacitação. A geral aumenta a produtividade da pessoa em qualquer empregador que valorize aquela competência, não só no atual. A específica só tem valor dentro da empresa que a desenvolveu, porque está amarrada a um processo, um sistema ou um jeito de operar que não existe fora dali.

Essa distinção muda quem tem incentivo para pagar por ela. Numa competência geral e portátil, a empresa que a financia integralmente corre um risco estrutural: se o mercado reconhece e remunera aquela habilidade, o funcionário formado por uma empresa pode ser contratado por outra pagando mais, e a empresa que investiu não recupera o retorno. É por isso que, na lógica de Becker, o custo de capacitação geral tende a ser dividido, muitas vezes com o próprio profissional aceitando um salário de formação mais baixo em troca de adquirir algo que vai carregar para onde for. Já na competência específica, o cálculo se inverte. Como ela não se transporta para outro empregador com o mesmo valor, a empresa tem motivo real para bancar o investimento e depois para reter quem o recebeu, porque perder essa pessoa é perder um capital que não se recompra fácil no mercado.

O critério que decorre disso: o quanto a competência viaja

Aplicado à escolha entre comprar e formar, o raciocínio de Becker sugere uma pergunta anterior a qualquer decisão de vaga: a competência que falta é portátil ou específica desta empresa? Se é uma habilidade amplamente reconhecida e remunerada no mercado, como domínio de uma ferramenta padrão do setor, formá-la do zero internamente com recurso da empresa é apostar contra a própria lógica econômica que Becker descreveu: quem sai ganhando com o investimento pode não ser quem pagou por ele. Nesse caso, comprar pronto costuma ser a rota mais defensável, porque o mercado já precificou aquela competência e a empresa está apenas pagando o preço corrente, não bancando sozinha um risco de fuga.

Se a competência é específica, amarrada ao produto, ao cliente, ao processo interno ou a uma combinação de conhecimentos que só existe dentro daquela operação, o cálculo se inverte. Contratar pronto no mercado externo é, na prática, impossível: ninguém chega sabendo o processo interno de uma empresa que nunca viu por dentro. Formar é a única rota, e o risco de fuga é naturalmente menor, porque o que a pessoa aprendeu viaja mal para outro empregador.

Dois outros critérios completam a conta, sem substituir o primeiro. A escassez no mercado: quando a competência é rara e disputada, comprar fica lento e caro, e formar deixa de ser opção de conforto para virar necessidade. E o risco de informação: contratar externamente é decidir com base em sinais de entrevista e referência, sempre imperfeitos; desenvolver internamente decide sobre alguém cujo desempenho real já é conhecido, o que reduz o risco de uma aposta baseada em impressão. É esse conjunto de critérios, e não a preferência de quem abriu a vaga, que deveria decidir a rota.

Formar não é uma intenção, é um mecanismo

A rota de formação só compensa se for de fato executada com disciplina, e é aqui que a maioria das empresas que “prefere formar internamente” falha sem perceber. Dizer que vai desenvolver alguém para uma posição não é um plano, é uma esperança com prazo indefinido. Sem uma competência claramente definida, um caminho de desenvolvimento desenhado para fechar essa lacuna específica e um horizonte de tempo real, formar internamente vira a versão mais cara das duas opções: o custo de um processo de desenvolvimento mal estruturado, somado ao custo de ainda ter que contratar externamente quando o prazo aperta e a pessoa não chegou lá a tempo.

É essa diferença entre desenvolvimento como intenção e desenvolvimento como mecanismo que a fase de Conceito do método CCPS endereça, ao exigir que o comportamento ou a competência que precisa mudar seja nomeada antes de qualquer conteúdo entrar em produção.

O que decidir antes de abrir a vaga

Três perguntas, feitas antes da vaga ser aberta ou do orçamento de desenvolvimento ser aprovado, substituem a preferência pessoal por critério.

A competência que falta é portátil no mercado ou específica desta empresa? Se é portátil e bem remunerada fora, comprar tende a ser mais defensável. Se é específica, formar é muitas vezes a única rota real.

Existe candidato interno com desempenho já conhecido, ou a decisão dependeria de avaliar um estranho por sinais de entrevista? Informação confiável sobre desempenho passado vale mais do que parece na hora de decidir.

Se a rota escolhida for formar, existe um plano com competência nomeada, etapas definidas e prazo, ou existe apenas a intenção de “desenvolver internamente”? Sem essas três coisas, formar não é uma decisão, é um adiamento da decisão de contratar, disfarçado de estratégia. A mesma pergunta aparece na dimensão de desenho do diagnóstico da Arax, que verifica se a área de T&D consegue transformar uma lacuna de competência identificada em plano com etapas e prazo, ou se o plano existe só no discurso.