Três abordagens, três escalas, nenhuma concorrente
Design Thinking, ADDIE e SAM não competem entre si: resolvem perguntas diferentes, em momentos diferentes do projeto. Tratar um como substituto do outro é escolher a ferramenta errada.
Times de T&D que adotam Design Thinking costumam fazer uma de duas coisas erradas com ele. Ou tentam usá-lo para tudo, inclusive para decidir a estrutura interna de um módulo que já se sabe que vai existir, ou o descartam depois de um workshop decepcionante e voltam a produzir conteúdo direto, sem nunca ter testado se o problema que motivou o projeto era mesmo o problema certo. Nos dois casos, a área trata Design Thinking, ADDIE e SAM como opções concorrentes de um mesmo menu, quando na prática resolvem perguntas que aparecem em momentos diferentes do projeto.
O que o Design Thinking resolve
Design Thinking tem raiz em literatura sobre como profissionais de design raciocinam, uma linha de pesquisa que descreve o projetar como um jeito próprio de conhecer, distinto do raciocínio puramente analítico. Popularizado a partir daí para times de produto e inovação, o pacote comercial mais conhecido organiza o trabalho em etapas de empatia, definição do problema, ideação, prototipagem e teste, tipicamente alternando entre divergir, gerar muitas possibilidades sem julgar, e convergir, escolher e refinar.
O valor central da abordagem está nas duas primeiras etapas, empatia e definição. Antes de decidir o que construir, Design Thinking obriga a investigar como o problema é vivido por quem está dentro dele, e a formular esse problema de um jeito mais preciso do que a queixa original trazida pelo cliente interno. É uma ferramenta de enquadramento, não de produção. A crítica mais consistente que a literatura faz ao pacote comercial é que, aplicado como ritual de dois dias com post-it, tende a pular rápido demais da empatia para a ideação, produzindo solução rasa que preserva o que já existia, exatamente o oposto do que a etapa de definição deveria garantir. O que sobra de útil, mesmo reconhecendo essa crítica, é a disciplina de não aceitar a primeira formulação do problema como a formulação final antes de propor qualquer solução.
O que ADDIE e SAM resolvem
ADDIE estrutura o desenho de uma peça de conteúdo específica em cinco etapas, análise, desenho, desenvolvimento, implementação e avaliação, normalmente em sequência. SAM responde à crítica mais comum feita ao ADDIE, a de que a sequência linear atrasa demais o primeiro contato do público real com o material, propondo ciclos curtos de protótipo e ajuste em vez de uma produção completa validada só no fim.
Os dois entram num ponto do projeto em que uma decisão já foi tomada: que o formato é um curso, um módulo, uma simulação, e que o conteúdo genérico dessa peça já está mais ou menos definido. A pergunta que ADDIE e SAM respondem é como estruturar bem essa peça, não se essa peça é a resposta certa para o problema. Nenhum dos dois questiona a premissa de que produzir conteúdo é o caminho, porque essa pergunta, deliberadamente, não é da alçada deles.
Onde cada um entra na linha do tempo de um projeto
Design Thinking opera antes de se saber o que vai ser produzido. É a ferramenta certa quando a pergunta ainda é “qual é o problema, de fato, e o que resolveria” e a resposta óbvia, “vamos fazer um treinamento sobre X”, ainda não foi testada contra a experiência de quem vive a situação. ADDIE e SAM operam depois que essa pergunta já tem resposta razoavelmente estável, no momento em que o trabalho passa a ser desenhar bem a peça que já se sabe que vai existir.
O erro mais caro é inverter essa ordem. Rodar um processo de produção estilo ADDIE antes de testar se o problema é mesmo de conteúdo trava a equipe cedo demais numa hipótese de solução que ninguém checou, e qualquer defeito na formulação do problema vira defeito herdado no curso inteiro, por mais bem estruturado que ele seja internamente. O erro inverso também acontece, embora menos: insistir em rodadas de ideação e prototipagem de baixa fidelidade quando o problema já está bem entendido e o formato já foi validado, o que só atrasa uma produção que já poderia estar em curso.
Onde o CCPS se encaixa nessa comparação
Vale uma diferença que ainda não foi coberta aqui, mas que precisa aparecer para a comparação ficar completa: nenhuma das três abordagens, Design Thinking, ADDIE ou SAM, estrutura um programa inteiro de educação corporativa. As três operam dentro do desenho de uma iniciativa específica, seja na etapa de entender o problema, seja na etapa de produzir a resposta a ele. Quem decide se um programa de T&D deveria existir, o que precisa mudar de comportamento e o que vai sustentar esse resultado depois do lançamento é uma pergunta de escala diferente, tratada dentro das fases do método CCPS. Design Thinking, quando usado dentro de um projeto de T&D, tende a operar na fase de Conceito, ajudando a testar se a formulação do problema resiste ao contato com quem vive a situação, antes de a fase de Prática decidir como desenhar a peça, momento em que ADDIE ou SAM voltam a ser as ferramentas certas.
O que fazer na prática
Antes de convocar uma equipe para um workshop de Design Thinking ou para abrir um cronograma de ADDIE, vale uma pergunta simples: já sabemos o que vamos construir, ou ainda estamos descobrindo o que precisa ser resolvido? Se a resposta é a segunda, o investimento certo é tempo de investigação e enquadramento, não estrutura de produção. Se a resposta é a primeira, e o problema já foi testado contra a realidade de quem o vive, produzir um workshop inteiro de ideação sobre algo que já está claro é gastar tempo revalidando o que não precisa mais de validação.
As três abordagens continuam válidas juntas dentro do mesmo projeto, só que em janelas diferentes. Confundir a pergunta de enquadramento com a pergunta de produção é o erro mais comum, e o mais fácil de evitar depois que a diferença fica explícita para quem aprova o cronograma.