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Divergir e convergir duas vezes, não uma

O duplo diamante propõe divergir sobre o problema antes de convergir sobre ele, e só depois repetir o movimento para a solução. A maioria dos projetos de T&D pula a primeira divergência direto para a segunda.

Quase todo projeto de treinamento nasce de uma reunião em que alguém já chega com o formato decidido: trilha em vídeo, workshop presencial, série de microlearning. O que falta nessas reuniões não é criatividade sobre a solução, é discussão sobre se o problema foi bem entendido antes da solução aparecer. O duplo diamante, modelo popularizado pelo Design Council, nomeia essa falha com precisão: ele separa duas divergências e duas convergências, e a maioria dos projetos de T&D só faz a segunda.

O que o modelo descreve

A forma do duplo diamante é literal: dois losangos lado a lado. No primeiro, o movimento é divergir sobre o problema, explorando possibilidades amplas do que pode estar de fato acontecendo, para depois convergir numa definição específica do que será resolvido. No segundo losango, o movimento se repete, mas sobre a solução: divergir gerando várias alternativas de resposta, para depois convergir na que será desenvolvida e entregue. A contribuição do modelo não é nenhuma das quatro etapas isoladamente, é a insistência de que a primeira divergência precisa acontecer sobre o problema, antes de qualquer ideia de solução entrar na sala.

Aplicado a um projeto de T&D, isso significa que a primeira pergunta não é “que trilha vamos fazer” e sim “o que, de fato, está impedindo o desempenho esperado”. É a mesma pergunta que organiza a fase de Conceito do método CCPS: nomear o desempenho que precisa mudar antes de decidir formato, canal ou ferramenta. O duplo diamante dá um nome visual e sequencial a uma disciplina que, sem ele, a maioria dos times pula sem perceber que pulou.

Onde a maioria comprime o primeiro losango

Na prática, o primeiro diamante é o que mais sofre compressão, e a razão é estrutural: ele é o único dos dois que não produz um entregável reconhecível. O segundo diamante termina em protótipo, tela, roteiro, algo que se mostra numa reunião. O primeiro termina numa definição de problema, que parece, para quem cobra prazo, menos concreto do que um esboço de trilha. Isso cria um incentivo silencioso para tratar a etapa de descoberta do problema como formalidade de abertura de projeto, resumida numa reunião de kickoff de uma hora, e investir o tempo real na etapa que já se parece com entrega.

O efeito é previsível: o time converge rápido demais sobre o que é o problema, geralmente aceitando a primeira formulação que alguém trouxe para a sala, porque explorar as demais alternativas custaria tempo que já foi reservado para a solução. A pesquisa de usuário, quando existe, entra depois dessa convergência prematura, servindo para confirmar a hipótese inicial em vez de testá-la de verdade. É um padrão fácil de reconhecer depois do fato: o projeto tem entrevista, tem mapa de jornada, tem persona, e ainda assim chega exatamente à trilha que já estava no roteiro antes de qualquer uma dessas atividades acontecer. A pesquisa virou ilustração da decisão, não insumo para ela.

Essa compressão tem um custo que só aparece depois: quando o segundo diamante já está avançado, com roteiro escrito e produção contratada, voltar ao primeiro para corrigir uma definição de problema equivocada é caro em tempo e em credibilidade interna. Ninguém quer admitir, na metade da produção, que o problema foi mal definido lá atrás. É mais fácil seguir em frente com a solução errada do que reabrir uma discussão que parecia encerrada.

O que o modelo não resolve sozinho

É preciso ser honesto sobre o limite do duplo diamante: ele descreve uma sequência, não um critério de decisão. O modelo diz quando divergir e quando convergir, mas não diz, em nenhum dos dois momentos, com base em que se deve convergir. Essa é uma lacuna real, não um detalhe menor. Duas equipes podem seguir rigorosamente as quatro etapas do duplo diamante e chegar a definições de problema completamente diferentes, porque o modelo não carrega, dentro de si, nenhum instrumento de diagnóstico de causa. Ele organiza o processo de pensar; não substitui a pergunta sobre se a causa do baixo desempenho é mesmo de conhecimento, ou se é de ambiente, incentivo ou processo, questão que pertence a outro tipo de análise, feita dentro da própria fase de descoberta.

Vale registrar também que o duplo diamante é uma descrição de como bons projetos de design costumam se organizar, não um resultado experimental sobre o que produz melhor resultado de aprendizagem. Ele é útil como disciplina de processo, no sentido de forçar a pergunta certa na ordem certa. Tratá-lo como garantia de bom resultado seria dar a ele um peso que a própria origem do modelo não reivindica.

Como isso muda o desenho de uma trilha

Na prática, o primeiro diamante de um projeto de T&D precisa de tempo protegido, com hora marcada na agenda, assim como a produção de conteúdo tem. Isso significa reservar tempo para ouvir quem vive o problema antes de qualquer esboço de solução aparecer numa tela, e resistir à tentação de aceitar a primeira definição de problema só porque ela chegou pronta de quem pediu o projeto. Estruturar essa primeira divergência com critério, em vez de deixá-la depender do instinto de quem está com mais pressa na sala, é trabalho que antecede qualquer proposta. O diagnóstico de maturidade da Arax é um jeito de começar por aí.

O teste prático para saber se um projeto passou de fato pelo primeiro diamante é simples: pergunte se, em algum momento, a definição do problema mudou depois da primeira reunião. Se a resposta é não, é provável que a primeira divergência nunca tenha realmente acontecido, e o projeto foi direto para o segundo losango vestido de primeiro.

Vale registrar esse teste no início do projeto, não no fim, como um compromisso explícito de que a definição inicial do problema pode e deve mudar se a investigação apontar nessa direção. Times que tratam a primeira definição como provisória, sujeita a revisão até que a etapa de descoberta termine de fato, chegam ao segundo diamante com uma pergunta mais precisa para responder, e gastam menos tempo revisando decisão de solução depois que ela já foi tomada.