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O descompasso entre a formação disponível e a competência necessária

A vaga fica aberta meses, os currículos chegam aos montes e mesmo assim ninguém se encaixa. O que a empresa faz diante desse descompasso, tratado como fenômeno de mercado de trabalho.

Uma vaga fica aberta por meses, currículos continuam chegando todos os dias, e mesmo assim ninguém se encaixa no que a posição exige. Visto de fora, parece contradição: como pode faltar gente qualificada com tanta gente procurando emprego? Visto de perto, é o retrato comum de um descompasso estrutural entre a formação que o mercado consegue oferecer num determinado momento e a competência específica que uma função exige agora. Entender esse mecanismo muda o que a empresa faz diante dele, e é sobre isso que este artigo trata.

Duas velocidades diferentes

Formação de competência é um processo lento. Envolve tempo de estudo, prática acumulada e, em muitos casos, anos de experiência real antes que alguém domine uma função com profundidade. A demanda das empresas por competências específicas muda num ritmo mais rápido, conforme tecnologia, processo e modelo de negócio evoluem. Quando essas duas velocidades se descolam, existe um período, às vezes longo, em que a competência que o mercado está formando ainda não é exatamente a competência que as vagas abertas exigem.

Isso não é falha de quem procura emprego nem de quem contrata. É o resultado natural de dois relógios correndo em velocidades diferentes. Uma pessoa pode estar plenamente empregável para o mercado de alguns anos atrás e ainda assim não se encaixar nas exigências específicas das vagas abertas hoje, sem que isso signifique falta de esforço ou de competência em sentido geral.

A distinção que ajuda a nomear o problema

Becker descreveu uma diferença útil para entender por que esse descompasso é difícil de resolver rápido. Competência geral é transferível entre empregadores: uma vez formada, serve a qualquer empresa que precise dela, e por isso nenhum empregador individual tem incentivo forte para bancar sozinho essa formação, já que o investimento pode ser aproveitado pelo concorrente que contratar a pessoa depois. Competência específica só tem valor pleno dentro de uma empresa em particular, ligada ao processo, à ferramenta ou ao contexto daquela operação, e por isso é a própria empresa quem tem mais incentivo para formá-la.

O descompasso de qualificação normalmente aparece na fronteira entre as duas. O mercado forma, em algum grau, competência geral, porque é isso que instituições de ensino, cursos e certificações amplas conseguem oferecer a qualquer pessoa. O que falta, com frequência, é a camada específica que só se forma dentro da operação em que vai ser usada, e essa camada não aparece pronta em currículo nenhum, porque não é produzida fora da empresa que precisa dela.

Esperar o mercado formar ou formar internamente

Diante desse descompasso, a empresa tem, na prática, duas opções, e a escolha entre elas é uma decisão de negócio, não uma preferência de RH. Uma é esperar que o mercado eventualmente feche a lacuna, mantendo a vaga aberta até aparecer alguém que já chegue pronto. A outra é reduzir a exigência de competência específica já pronta na contratação e investir na formação depois que a pessoa entra, usando o tempo de vaga aberta como argumento para essa conta.

A primeira opção parece mais barata porque não aparece como investimento explícito, mas carrega um custo real: o tempo em que a posição segue vaga, com o trabalho que ela deveria cobrir distribuído entre quem já está no time ou simplesmente não realizado. A segunda opção aparece como despesa visível de formação, mas costuma reduzir o tempo total até a posição estar plenamente coberta, principalmente quando a lacuna é de competência específica, exatamente o tipo de competência que o mercado nunca vai entregar pronta, porque não tem motivo econômico para produzi-la fora da empresa que a usa.

O que muda na prática de contratação e desenvolvimento

Reconhecer esse mecanismo muda três decisões concretas. A primeira é revisar a descrição de vaga separando o que é competência geral, razoável exigir já pronta, do que é competência específica, mais realista formar depois da contratação. Vagas que exigem os dois tipos de competência já formados no momento da entrada tendem a ficar abertas por mais tempo, justamente porque pedem algo que só a própria empresa tem incentivo pleno para produzir.

A segunda é tratar programas de formação interna, trilhas de onboarding técnico e parcerias de capacitação como parte da estratégia de preenchimento de vaga, não como benefício posterior à contratação. A terceira é medir o descompasso onde ele realmente aparece: no tempo até a posição entregar no nível esperado, e não apenas no tempo até a posição ser formalmente preenchida, porque as duas datas raramente coincidem quando a lacuna é de competência específica.

Há uma resposta comum ao descompasso que costuma piorar o problema em vez de resolvê-lo: inflar a descrição da vaga, pedindo cada vez mais experiência prévia exatamente naquilo que a empresa poderia formar internamente em menos tempo do que leva para encontrar alguém já pronto. Esse movimento parece prudente, porque reduz o risco percebido da contratação, mas na prática estreita ainda mais o funil de candidatos disponíveis e prolonga o tempo de vaga aberta, sem que a competência específica exigida fique, em algum momento, mais fácil de encontrar pronta no mercado. O caminho mais curto costuma ser o oposto: reduzir a exigência de prontidão específica na entrada e assumir, de forma deliberada, a formação que viria de qualquer forma depois.

O que revisar na próxima vaga difícil de fechar

Antes de manter uma vaga aberta esperando o candidato perfeito aparecer, vale separar, com clareza, o que ela exige em competência geral do que exige em competência específica da operação. Para a parte geral, o mercado é um fornecedor razoável. Para a parte específica, a pergunta certa não é onde encontrar alguém que já saiba, mas quanto tempo leva para formar quem já está perto de saber, dentro de casa ou logo depois de contratado. Localizar onde essa lacuna específica pesa mais no funcionamento da área é o que faz a formação interna entrar na conta antes de a vaga virar um problema crônico de operação. Se esse retrato ainda não estiver claro, o diagnóstico gratuito de T&D é um ponto de partida, e as frentes de solução da Arax mostram por onde a formação costuma ser estruturada.