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Falar por cima do slide ou escrever no slide?

Quando uma imagem já está na tela, explicá-la por narração costuma render mais entendimento do que repetir a mesma explicação em texto escrito. A evidência é mais firme nuns contextos do que em outros, e a diferença importa para quem produz.

Um roteirista de e-learning termina um storyboard e chega à mesma dúvida de sempre: a explicação de um diagrama complexo deve vir narrada em áudio, com o slide mostrando só a imagem, ou deve vir escrita, em bloco de texto ao lado do mesmo diagrama? A resposta parece questão de gosto ou de orçamento de locução, e na verdade é uma decisão com consequência mensurável sobre quanto da explicação chega a quem assiste.

O princípio, segundo Mayer

Richard Mayer descreveu esse tipo de decisão como o princípio da modalidade: quando uma pessoa precisa entender uma imagem ou animação junto de uma explicação, ela aprende melhor ouvindo a explicação do que lendo o mesmo texto na tela, ao mesmo tempo em que olha para a imagem. A lógica por trás do princípio vem da ideia de que texto escrito e imagem competem pelo mesmo canal, o visual: os olhos só podem estar num lugar de cada vez, alternando entre ler o texto e examinar o diagrama. Narração usa outro canal, o auditivo, o que permite que os olhos fiquem livres para acompanhar a imagem enquanto o ouvido processa a explicação. As duas fontes de informação deixam de disputar o mesmo espaço e passam a ocupar espaços diferentes.

Vale notar o que o princípio não diz. Não diz que texto escrito é sempre pior que narração, em qualquer situação. Diz especificamente que, quando o material já pede que a pessoa olhe para algo visual ao mesmo tempo em que recebe uma explicação, colocar essa explicação em texto na mesma tela cria uma disputa evitável pelo canal visual.

Onde a evidência é mais firme, e onde é mais frágil

Aplicar o princípio como regra universal é o erro mais comum de quem o conhece de forma superficial. Ele é mais defensável em material com ritmo controlado pelo sistema, como um vídeo ou uma animação que avança sozinha, porque nesse caso a pessoa não tem como voltar e reler um trecho perdido: se a explicação em texto passou rápido demais junto com a imagem, ela se perde de vez. Em material que a própria pessoa controla, avançando e voltando no próprio ritmo, o argumento perde parte da força, porque ela pode reler o texto quantas vezes precisar, algo que não faz sentido pedir de uma narração corrida.

Há também situações em que texto na tela deixa de ser o vilão do princípio e passa a ser necessário por outro motivo, que não é de carga cognitiva: acessibilidade para quem tem deficiência auditiva, ambiente de trabalho onde o som não pode ser ligado, ou audiência que lida com um vocabulário técnico novo e se beneficia de ver o termo escrito, não só ouvi-lo. Nesses casos, a decisão certa não é “narração sempre vence”, é encontrar uma forma de manter texto sem recriar a disputa que o princípio identifica, normalmente com rótulos curtos e termos-chave na tela, em vez de um bloco de texto que repete frase a frase o que a narração já está dizendo.

Essa última distinção merece cuidado, porque mistura dois problemas parecidos, mas diferentes. Uma coisa é escrever a explicação inteira no slide em vez de narrá-la, o problema que o princípio da modalidade discute. Outra é narrar a explicação e, ao mesmo tempo, escrever o texto idêntico na tela, palavra por palavra, o que soma um segundo problema por cima do primeiro: a pessoa ouve e lê a mesma frase ao mesmo tempo, o que não ajuda a reforçar, porque processar as duas versões simultâneas da mesma informação também consome atenção. São dois efeitos relacionados, mas distintos, e tratar os dois como se fossem a mesma coisa leva a soluções erradas para cada um.

Decisão prática para o roteiro

A regra que sobra depois dessas ressalvas não é “nunca escreva no slide”. É mais específica. Quando o slide mostra uma imagem ou animação que a pessoa precisa examinar enquanto entende uma explicação, e o ritmo do material não está sob controle de quem assiste, a explicação deveria vir narrada, com a tela livre para a imagem. Quando o material é autopaced e a pessoa pode voltar e reler, ou quando existe exigência de acessibilidade, texto continua tendo lugar, de preferência em rótulos curtos ligados diretamente ao que a imagem mostra, não em blocos longos que competem com ela.

Essa decisão é parte do mesmo trabalho de desenho discutido em como fatiar conteúdo sem perder o que ele deveria ensinar: decisão sobre formato depende do que o conteúdo exige, não de preferência de produção. E o mesmo raciocínio vale para outra decisão comum na hora de montar uma peça: não adianta escolher bem entre narração e texto se o material também está sendo consumido junto de uma tarefa concorrente, algo já tratado em por que atenção não se divide, alterna. As duas decisões, formato do canal e momento de consumo, resolvem problemas diferentes e as duas precisam estar certas ao mesmo tempo.

O que revisar no próximo roteiro

Antes de aprovar um storyboard, três perguntas aplicam o princípio sem exagero. A tela pede que a pessoa examine uma imagem enquanto recebe uma explicação, ou o conteúdo é só texto informativo sem elemento visual concorrente? No primeiro caso, a explicação pertence à narração. O ritmo é controlado pelo sistema ou pela pessoa? Ritmo controlado pelo sistema pede narração com mais força, porque não há segunda chance de reler. E, por fim: existe exigência de acessibilidade que obrigue texto na tela? Se sim, a solução não é abandonar a narração, é reduzir o texto a rótulos que apoiem a imagem em vez de repeti-la por escrito.