Quatro das seis causas de baixo desempenho não se resolvem com curso
Um problema de desempenho pode nascer em seis lugares diferentes. Treinamento resolve só um deles. O modelo de Gilbert existe para não confundir os outros cinco com falta de curso.
Quando um indicador de desempenho cai, a resposta mais comum em T&D é abrir um chamado de treinamento antes de perguntar se o problema é mesmo de aprendizagem. O time monta a trilha, o conteúdo sai no prazo, a nota de satisfação vem boa, e o indicador continua no mesmo lugar. O erro não estava na execução do treinamento. Estava na pergunta que nunca foi feita antes dele.
Um modelo para não pular a pergunta
Thomas Gilbert propôs, no que ficou conhecido como Behavior Engineering Model (BEM), uma forma de organizar as causas possíveis de um problema de desempenho antes de escolher a solução. O modelo separa seis células em dois grandes grupos: três ligadas ao ambiente em que a pessoa trabalha e três ligadas ao repertório da própria pessoa. A ideia central é simples de enunciar e difícil de praticar: antes de perguntar “que treinamento resolve isso”, perguntar “em qual dessas seis células o problema realmente está”.
O modelo não é uma teoria no sentido de prever comportamento com precisão nem de ter sido submetido a testes estatísticos amplos. É mais um instrumento de diagnóstico, uma lista de verificação estruturada, do que uma lei sobre desempenho humano. A crítica que se faz a ele é justamente essa: as seis células nem sempre são fáceis de separar na prática, um mesmo sintoma pode ter origem em mais de uma ao mesmo tempo, e classificar a causa exige julgamento de quem está olhando, não uma medição objetiva. O que sobrevive à crítica é o valor de checklist: obrigar a passagem pelas seis categorias antes de fechar em uma resposta impede o atalho de ir direto ao treinamento porque é a solução mais familiar de comprar.
As três células de ambiente
A primeira metade do modelo fica fora da pessoa. São condições do trabalho que, se estiverem erradas, nenhuma competência individual compensa.
- Dados e informação. A pessoa sabe exatamente o que se espera dela, tem metas claras e recebe retorno sobre como está indo? Quando essa célula falha, o problema é de clareza de expectativa, não de capacidade.
- Recursos e instrumentos. Existem ferramenta, processo, tempo e condição física para executar bem a tarefa? Um processo mal desenhado produz erro mesmo em quem sabe fazer.
- Incentivos. O sistema de consequências, formal e informal, recompensa o comportamento que a empresa diz querer? Às vezes ele pune, sem intenção nenhuma de punir.
Nenhuma dessas três se resolve com um módulo de e-learning. Resolve-se ajustando o que a organização entrega para a pessoa antes de pedir que ela entregue algo de volta.
As três células de indivíduo
A segunda metade está na pessoa, e é aqui que mora a confusão mais comum.
- Conhecimento e habilidade. A pessoa sabe como fazer? Esta é a célula de treinamento, a única das seis em que ensinar é a resposta direta.
- Capacidade. A pessoa tem o perfil físico ou cognitivo necessário para a tarefa como está desenhada hoje? Quando a barreira é de capacidade, treinar mais não muda um limite estrutural.
- Motivos. A pessoa quer fazer, no sentido de que a tarefa se alinha com o que importa para ela? Falta de motivação não se corrige com mais conteúdo sobre o assunto.
Das seis, uma. As outras cinco pedem mudança de processo, de sistema de reconhecimento, de desenho de cargo ou de conversa sobre expectativa, não pedem currículo.
Por que o reflexo de treinar erra o alvo
O treinamento é a resposta mais fácil de aprovar porque já existe orçamento para ela, já existe fornecedor para ela e ninguém questiona a decisão de “investir em desenvolvimento”. Questionar se o time tem ferramenta adequada, se a meta foi comunicada com clareza ou se o plano de incentivos está desalinhado exige uma conversa mais difícil, geralmente com outra área. É mais confortável treinar do que consertar um processo que não é do T&D.
O custo dessa escolha não aparece na avaliação de reação do curso, que tende a vir positiva independentemente da causa real do problema. Aparece meses depois, quando o indicador de negócio que motivou o pedido continua parado e ninguém mais lembra que houve um treinamento sobre aquilo. É o tipo de situação que a fase de Conceito do método CCPS existe para evitar, trocando a pergunta de partida antes de qualquer decisão de formato.
Uma célula raramente explica tudo sozinha
Na prática, um problema de desempenho costuma ter mais de uma célula envolvida, e isso é parte do que torna o modelo difícil de aplicar com rigor. Um vendedor pode não bater meta porque o CRM é ruim, porque a meta nunca foi explicada com clareza e porque, além disso, ele realmente não domina uma técnica específica de negociação. As três coisas são verdadeiras ao mesmo tempo, e cada uma pede uma ação diferente.
Isso não invalida o modelo, mas muda a forma de usá-lo. Em vez de procurar a célula única e definitiva, a pergunta mais útil é qual das seis, se corrigida primeiro, destrava o maior ganho com o menor esforço. Corrigir uma meta mal comunicada costuma ser mais rápido e mais barato do que redesenhar um processo inteiro, e ambas costumam ser mais rápidas do que produzir uma trilha completa. Começar pelo treinamento, que é geralmente a intervenção mais lenta e mais cara das seis, só faz sentido quando as outras cinco já foram descartadas ou já foram corrigidas e o problema persiste.
O que fazer na segunda-feira
Antes de aprovar a próxima solicitação de treinamento, vale passar a demanda pelas seis células, nem que seja numa conversa de trinta minutos com quem pediu. Perguntar se a pessoa sabe o que se espera dela. Perguntar se ela tem ferramenta e tempo para fazer o que está sendo pedido. Perguntar o que acontece, na prática, com quem faz e com quem não faz o comportamento desejado. Só depois de descartar as outras cinco células é que a conversa sobre conteúdo, formato e trilha faz sentido.
A Arax usa esse mesmo raciocínio no diagnóstico de causa, que separa lacuna de competência de barreira de ambiente antes de recomendar qualquer caminho. E, quando a causa realmente é a célula de treinamento, o desenho da resposta segue estruturado dentro das frentes de solução da Arax, não como curso avulso encomendado às pressas.