A pesquisa brasileira sobre TD&E que quase ninguém no mercado lê
Existe um corpo consistente de pesquisa brasileira sobre treinamento, desenvolvimento e educação corporativa. A distância entre essa produção e a prática de mercado custa decisão mal informada.
Boa parte do que circula em congresso e webinar de T&D no Brasil vem de fonte internacional, traduzida ou adaptada. Ao mesmo tempo, existe um corpo de pesquisa produzido no país, sobre organizações brasileiras, dedicado especificamente a Treinamento, Desenvolvimento e Educação, o campo que a literatura acadêmica chama de TD&E. A distância entre essas duas coisas, uma produção nacional consistente e uma prática de mercado que quase não a conhece, é o assunto deste artigo.
Um campo que não é tradução
TD&E não é uma versão em português da literatura americana de treinamento corporativo. É uma linha de pesquisa estruturada dentro do país, com pesquisadores que se dedicaram, ao longo de décadas, a estudar como a aprendizagem acontece dentro de organizações brasileiras: como se levanta necessidade de forma que gere decisão útil, como se desenha instrução para esse contexto, como se avalia se o que foi aprendido efetivamente se transferiu para o trabalho.
Jairo Borges-Andrade, Gardênia Abbad, Thaís Zerbini e Pedro Meneses estão entre os nomes que ajudaram a estruturar esse campo de estudo no Brasil. O ponto deste artigo não é atribuir a cada um deles um achado específico, é registrar que essa produção existe, é contínua, e trata de perguntas que o mercado de T&D se faz todos os dias sem saber que já foram investigadas com rigor por aqui.
O que essa produção, no conjunto, já respondeu
Tomada como conjunto, essa linha de pesquisa produziu instrumentos de mensuração pensados para o contexto de organizações brasileiras, não importados sem adaptação de outro ambiente cultural e institucional. Produziu também um jeito mais preciso de separar etapas que o mercado costuma tratar como uma coisa só: reação ao curso, retenção do conteúdo e transferência para o trabalho são fenômenos diferentes, medidos em momentos diferentes, e essa separação vem sendo trabalhada nessa literatura há tempo suficiente para deixar de ser novidade acadêmica e virar prática recomendada.
Essa produção também olhou com cuidado para as variáveis, individuais, do desenho do treinamento e do ambiente de trabalho, que determinam se algo aprendido em sala vira comportamento sustentado depois. É a mesma pergunta que qualquer área de T&D faz quando um programa termina e ninguém sabe dizer se ele mudou alguma coisa. A diferença é que, nesse campo, a pergunta já foi investigada de forma sistemática, com método explícito, em vez de respondida por impressão.
Nada disso equivale a dizer que a pesquisa brasileira em TD&E já resolveu tudo o que a área de T&D precisa saber, nem que cada estudo produzido chega a uma conclusão definitiva e fechada. Como qualquer campo de pesquisa vivo, ele tem debate interno, resultado que se revisa e pergunta que segue aberta. O que se pode afirmar com segurança é que a existência dessa produção, contínua e nacional, já é suficiente para mudar o ponto de partida de quem precisa tomar uma decisão de mensuração ou de desenho: em vez de importar um framework internacional sem checar se ele já foi discutido ou testado por aqui, existe um primeiro lugar mais próximo para procurar.
Por que essa distância existe
A explicação não é falta de qualidade de nenhum dos dois lados, é descompasso de formato e de incentivo. Pesquisa acadêmica é publicada para avaliação de pares acadêmicos, com linguagem e estrutura pensadas para esse público, não para quem precisa decidir o próximo trimestre de orçamento. Quem lidera T&D, por sua vez, busca informação em webinar, relatório de analista de mercado e conteúdo de fornecedor, formatos desenhados para consumo rápido, e raramente encontra o caminho de volta até o artigo que sustenta a afirmação que acabou de ouvir.
Nenhum dos dois lados foi desenhado pensando no outro. O resultado é um mercado que repete heurística e framework popular com mais confiança do que a evidência disponível justificaria, enquanto uma produção nacional capaz de testar boa parte dessas heurísticas segue disponível, publicada, e praticamente invisível fora da universidade.
Há um custo concreto nisso, não só um custo de imagem acadêmica. Uma área que decide como medir impacto, como desenhar um levantamento de necessidade ou como estruturar um processo de transferência sem consultar essa produção corre o risco de reinventar, com mais esforço e menos rigor, algo que já foi investigado. E corre o risco maior de adotar um modelo popular no mercado internacional sem saber se ele já foi testado, discutido ou contestado por pesquisa feita sobre organizações como a dela.
O que fazer com isso na segunda-feira
Antes de desenhar um novo instrumento de avaliação, ou uma nova pesquisa de satisfação disfarçada de pesquisa de impacto, vale procurar se o construto que você quer medir já tem definição estabelecida na literatura, em vez de escrever as perguntas por intuição. Trate reação, aprendizagem e transferência como três coisas diferentes, medidas em momentos diferentes, não como uma nota única coletada na saída da sala, um cuidado que este blog já tratou em detalhe ao discutir por que satisfação não é aprendizado.
Quando um fornecedor ou consultoria afirmar que um treinamento “funciona”, pergunte qual construto foi de fato medido e em que momento, reação, aprendizagem ou comportamento aplicado. Coloque uma leitura de produção acadêmica brasileira por trimestre na rotina da área, ao lado dos relatórios de mercado que já fazem parte dela. E, se a empresa tiver relação com algum programa de pós-graduação em psicologia organizacional ou em administração, considere buscar apoio de quem está pesquisando TD&E agora mesmo para desenhar a próxima avaliação, em vez de reinventar o instrumento do zero.
Essa é a mesma disciplina que sustenta a dimensão de mensuração avaliada no diagnóstico da Arax, e que informa como a fase de Sustentação do método CCPS trata indicador e cadência depois do lançamento de um programa. A pesquisa já respondeu boa parte das perguntas que a área se faz sozinha. Falta menos gerar dado novo, e mais ir buscar o que já existe.