A reflexão que transforma experiência em competência
Ter dez anos de experiência e ter um ano de experiência repetido dez vezes não é a mesma coisa. Donald Schön explica a diferença, e explica também por que essa ideia é mais fácil de elogiar do que de aplicar.
Toda empresa tem alguém com muito tempo de casa que não virou, no mesmo ritmo, alguém com muita competência acumulada. O tempo passou, a experiência se repetiu, mas o desempenho estacionou num patamar que já foi atingido anos antes. Donald Schön dá nome ao que separa quem acumula tempo de quem acumula competência, e o nome é reflexão.
O que Schön de fato descreveu
Schön trabalhou sobre um problema específico: como profissionais competentes tomam decisão em situações que não vêm com manual, o caso comum da prática real, cheia de ambiguidade, conflito de valores e informação incompleta. Ele descreveu dois modos de reflexão que esse profissional exercita. A reflexão na ação acontece durante o próprio fazer, o ajuste que a pessoa faz em tempo real quando percebe que a abordagem não está funcionando, sem parar completamente o que está fazendo. A reflexão sobre a ação acontece depois, quando a pessoa revisita o que fez, o que funcionou, o que não funcionou e por quê, e extrai daí um entendimento que não estava disponível no calor da hora.
A distinção importa porque separa dois hábitos que costumam ser confundidos. Fazer muito não é o mesmo que refletir sobre o que se fez. Uma pessoa pode conduzir a mesma reunião difícil cem vezes e continuar cometendo o mesmo erro de leitura da sala, porque nunca parou para examinar o padrão. Outra pode conduzir a mesma reunião dez vezes e chegar à décima primeira com um repertório de ajuste que a primeira não tem, porque examinou cada uma das anteriores. A diferença entre as duas não está na quantidade de experiência. Está no que cada uma fez com ela.
Onde a ideia fica difícil de aplicar
A prática reflexiva é uma das ideias mais citadas e menos operacionalizadas da literatura de desenvolvimento profissional, e essa combinação não é acidente. A crítica mais consistente ao conceito é que ele descreve bem um processo interno, mas resiste a virar prescrição. Dizer “reflita sobre a própria prática” é fácil de recomendar e difícil de transformar num passo a passo replicável, porque a reflexão de Schön depende de julgamento tácito, do tipo de conhecimento que o próprio profissional muitas vezes não consegue explicitar em palavras. Isso também torna a reflexão difícil de avaliar de fora: como medir se alguém refletiu bem, e não apenas descreveu o que fez em retrospecto, usando o vocabulário certo?
Esse é o risco real de qualquer programa corporativo que promete “desenvolver a prática reflexiva” como se fosse uma competência ensinável em um módulo de duas horas. Sem um método concreto por trás, o resultado costuma ser o oposto do que Schön descreveu: um exercício de preencher formulário de lição aprendida, que produz texto sobre reflexão sem produzir a reflexão em si.
O que sobrevive à crítica, e vale desenhar para valer
A vaguidão do conceito não invalida a observação de fundo, que é robusta: existe diferença real entre repetir e examinar, e essa diferença explica parte considerável da distância entre quem tem tempo de casa e quem tem competência. O que muda, à luz da crítica, é a ambição do que um programa de T&D pode prometer. Não dá para prometer “ensinar reflexão” em abstrato. Dá para desenhar estrutura que force o hábito de examinar, mesmo sem conseguir garantir que a reflexão de cada pessoa alcance a mesma profundidade.
Isso desloca o trabalho de desenho de conteúdo sobre reflexão para rotina que obriga reflexão. Depois de uma situação real, entrevista difícil, decisão de projeto, negociação perdida, existe uma pergunta estruturada e recorrente: o que eu esperava que acontecesse, o que de fato aconteceu, o que essa diferença revela sobre minha leitura da situação, o que eu faria diferente na próxima vez. Repetida com regularidade, essa sequência de perguntas aproxima mais do que Schön descreveu do que qualquer aula sobre o conceito.
Reflexão em tempo real é outro desenho
A reflexão na ação, o ajuste feito durante o próprio fazer, exige um desenho diferente da reflexão sobre a ação. Não dá para ensinar isso numa tela. Dá para criar condições em simulação ou em prática supervisionada nas quais a pessoa é forçada a perceber, no meio da ação, que a abordagem não está funcionando, e a ajustar antes de terminar. Isso é mais parecido com prática guiada e feedback próximo do que com conteúdo instrucional tradicional, e é uma das razões pelas quais a fase de Prática do método CCPS trata simulação e situação real como parte central do desenho, não como complemento opcional depois da teoria.
O gestor tem papel direto nisso. A conversa de retorno depois de uma situação difícil, quando bem conduzida, funciona como andaime para a reflexão sobre a ação: pergunta aberta em vez de avaliação fechada, espaço para a pessoa nomear o próprio raciocínio antes de receber o veredicto de fora. É o tipo de prática de gestão que conecta diretamente com a subfaceta de liderança como educadora que o diagnóstico da Arax examina, porque parte considerável da reflexão profissional acontece fora de qualquer sala de treinamento, na conversa que segue o evento real.
O que fazer na próxima trilha
Antes de incluir “prática reflexiva” no desenho de um programa, vale substituir a palavra por uma pergunta mais concreta: que rotina, depois de qual tipo de situação, com que frequência, vai obrigar a pessoa a examinar o que fez em vez de só fazer de novo. Se a resposta for genérica demais para virar rotina, o módulo está prometendo mais do que o conceito sustenta.
Vale também resistir à tentação de transformar reflexão em formulário burocrático de fim de projeto, preenchido para constar. A reflexão que Schön descreveu muda comportamento porque é próxima do evento, específica sobre ele e revisitada com regularidade, não porque existe um campo de texto reservado para ela no sistema.