Cinco princípios que aparecem em todo desenho que funciona
Merrill comparou modelos de desenho instrucional concorrentes e extraiu o que eles têm em comum. Não é resultado de experimento controlado, é síntese, e isso muda o peso que ela deveria ter numa decisão de desenho.
Merrill não testou um grupo de participantes contra outro para chegar aos cinco princípios que ficaram conhecidos como primeiros princípios da instrução. Ele comparou um conjunto de modelos de desenho instrucional já consolidados, procurando o que tinham em comum apesar de vocabulários e ênfases diferentes. Essa origem metodológica importa para quem vai usar o resultado: os cinco princípios são uma síntese de literatura, não um achado experimental, e tratá-los como uma coisa ou outra muda o peso que merecem numa decisão de desenho.
O interesse do mercado de T&D por essa síntese é compreensível. Um profissional que precisa escolher entre modelos concorrentes, cada um com vocabulário próprio e comunidade própria de defensores, ganha algo valioso ao encontrar o que todos eles pedem em comum, mesmo sob nomes diferentes. O risco é transformar essa conveniência prática numa autoridade que o método de origem não reivindica para si.
O que Merrill fez, e o que isso não é
O trabalho de Merrill parte de uma pergunta de outra natureza que a maioria dos modelos de desenho instrucional. Em vez de propor mais um modelo concorrente, ele perguntou o que os modelos já existentes, com nomes e ênfases diferentes, prescreviam em comum quando funcionavam bem. É um exercício de análise comparativa, não um experimento com grupo controle e grupo de comparação. Isso não desqualifica o resultado, mas define o que ele é: uma tese sobre convergência entre teorias, sustentada pela leitura cruzada de várias delas, não uma descoberta isolada testada em condição controlada.
Os cinco princípios
Merrill descreveu cinco condições que, segundo ele, aparecem em todo desenho instrucional eficaz, independente do modelo de origem. A aprendizagem é facilitada quando o participante trabalha sobre uma tarefa ou problema completo e real, não sobre fragmentos isolados de conteúdo. Quando o processo ativa conhecimento ou experiência prévia relevante como base para o novo aprendizado, em vez de tratar o participante como se chegasse vazio. Quando o novo conhecimento é demonstrado, mostrado em ação, e não apenas descrito. Quando o participante tem oportunidade de aplicar o conhecimento novo para resolver problemas, com orientação decrescente conforme ganha domínio. E quando o conhecimento é integrado à rotina do participante, levado para fora do ambiente de aprendizagem e incorporado a algo que ele já faz.
Nenhuma dessas cinco condições é original de Merrill, isoladamente. Cada uma já aparecia, sob outro nome, em algum modelo de desenho instrucional específico. A contribuição dele está em juntar as cinco num conjunto único e argumentar que, presentes ao mesmo tempo, marcam a diferença entre um módulo que informa e um módulo que efetivamente muda o que a pessoa consegue fazer depois.
Por que isso é síntese, e não lei
Tratar os cinco princípios como lei geraria uma expectativa que o próprio método de origem não sustenta. Uma síntese comparativa é tão forte quanto os modelos que ela comparou, e tão sujeita a viés de seleção quanto qualquer revisão de literatura: se os modelos escolhidos para comparação já compartilhavam uma tradição comum, a convergência encontrada é menos surpreendente do que parece. Isso não torna os cinco princípios inúteis, torna-os o que de fato são, um denominador comum bem argumentado, com boa aceitação entre praticantes, e não um resultado testado experimentalmente contra desenhos que não os seguem. A honestidade sobre essa diferença é o que separa recomendar os princípios como boa prática de vendê-los como ciência assentada.
Isso não é motivo para descartá-los. É motivo para usá-los com o peso certo: como uma lente de revisão bem argumentada e amplamente aceita entre quem desenha instrução, não como um veredito definitivo sobre o que funciona em qualquer contexto. A mesma cautela vale para outros modelos populares de aprendizagem, porque popularidade entre praticantes não é o mesmo que validação experimental repetida.
Onde isso difere de Gagné
Vale separar isso de outro modelo consagrado de desenho instrucional, porque os dois costumam ser citados juntos e resolvem perguntas diferentes. Gagné organiza a sequência interna de uma aula específica, evento por evento, do início ao fim. Merrill não propõe sequência, propõe condições que precisam estar presentes em algum ponto do desenho, sem prescrever ordem fixa nem formato. Um descreve como estruturar uma peça, passo a passo. O outro descreve o que várias peças bem-sucedidas, estruturadas de formas diferentes entre si, têm em comum. Confundir os dois leva a tratar os cinco princípios como mais uma lista de etapas a seguir em ordem, o que não é a natureza deles.
O que fazer no próximo desenho
Em vez de usar os cinco princípios como checklist de conformidade, use como pergunta de revisão depois que o rascunho de um módulo já existe. O participante está diante de um problema real e completo, ou de fragmentos de conteúdo genérico? O desenho ativa o que ele já sabe antes de apresentar o novo, ou ignora a experiência prévia? Existe demonstração do conhecimento em ação, não só explicação? Existe aplicação prática com apoio que diminui aos poucos? E existe algum passo que leve isso de volta para a rotina do participante, fora do ambiente de treinamento? Um módulo que responde bem às cinco perguntas tende a funcionar, independente do processo de desenho instrucional usado para chegar até ele. É esse o motivo pelo qual os princípios continuam citados: não porque foram provados, mas porque continuam úteis como critério de revisão.
Vale usar essa lista como filtro final, depois que o roteiro já foi escrito com o apoio de outro modelo de desenho, não como ponto de partida único. Nenhum modelo isolado, incluindo este, substitui a pergunta anterior sobre qual comportamento o programa precisa mudar. Ele só ajuda a garantir que, uma vez definida essa resposta, o módulo entregue de fato a experiência que os cinco princípios descrevem como comum ao que funciona.