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Rummler e Brache: o problema está na pessoa, no processo ou na organização?

Rummler e Brache descrevem três níveis onde um problema de desempenho pode estar: organização, processo e executor. Na prática, a fronteira entre os três é bem menos limpa do que o diagrama sugere.

Um resultado abaixo do esperado quase sempre aparece primeiro na pessoa: a meta não foi batida, o atendimento demorou, o erro chegou ao cliente. É natural que a resposta mais rápida seja treinar quem estava na ponta. Rummler e Brache descreveram um modelo que separa o desempenho em três níveis diferentes, organização, processo e executor, e que ajuda a explicar por que treinar a pessoa resolve o sintoma sem necessariamente resolver a causa.

Os três níveis do modelo

O primeiro nível é o da organização: a estratégia, os objetivos, a estrutura e a forma como as diferentes áreas se relacionam entre si. Um problema nesse nível aparece quando duas áreas têm metas que competem entre si, ou quando a estrutura não deixa claro quem é responsável por um resultado que depende de várias equipes.

O segundo nível é o do processo: o fluxo de trabalho que atravessa as fronteiras entre áreas para produzir um resultado. Um processo mal desenhado pode ter uma etapa redundante, uma transferência de informação que se perde entre um time e outro, ou um ponto de decisão que ninguém sabe que existe até o erro aparecer no fim da linha. É frequente que o problema pareça estar na pessoa que executa a última etapa, quando na verdade está numa etapa anterior do mesmo processo, fora do controle de quem foi cobrado pelo resultado.

O terceiro nível é o do executor, a pessoa e o cargo. É aqui que entram fatores como clareza da expectativa, competência para a tarefa, retorno recebido sobre o próprio desempenho e recursos disponíveis para executar o trabalho. Só neste nível é que treinamento, isoladamente, tem chance real de resolver o problema, porque só aqui a causa costuma estar de fato ligada a competência individual.

Por que a fronteira não é tão limpa quanto o diagrama

O modelo é útil justamente porque separa esses três níveis com clareza visual, e é exatamente essa clareza que pode enganar quem o aplica de forma mecânica. Na prática, um problema raramente vive inteiro dentro de um único nível. Um processo mal desenhado no nível intermediário produz, no dia a dia, uma pessoa que parece incompetente porque está seguindo um fluxo que não faz sentido. Uma decisão de estrutura no nível organizacional cria um processo com uma lacuna que ninguém desenhou de propósito, mas que existe porque duas áreas nunca se sentaram para alinhar a passagem de bastão entre elas.

O diagrama sugere três caixas separadas. A realidade organizacional é mais parecida com três camadas que se atravessam, em que um sintoma visível no nível do executor pode ter origem em qualquer um dos três, e frequentemente tem origem em mais de um ao mesmo tempo. Tratar o modelo como um algoritmo, com uma regra fixa que aponta automaticamente para o nível certo a partir do sintoma observado, é pedir dele uma precisão que ele não promete entregar. O valor do modelo está em obrigar a pergunta, organização, processo ou pessoa, antes de decidir a resposta, não em fornecer a resposta pronta.

Há também um efeito de conveniência que empurra a leitura sempre para o nível do executor: investigar processo e organização exige conversar com outras áreas, mapear um fluxo que atravessa fronteiras que a equipe de T&D não controla, e isso consome tempo que treinar a pessoa não consome. Concluir que o problema é de competência individual é, com frequência, o caminho de menor resistência organizacional, não necessariamente a conclusão mais correta. Reconhecer esse viés antes de investigar já muda a disposição de olhar para os outros dois níveis com mais seriedade.

Usar como lente, não como algoritmo

Isso muda como o modelo deveria ser aplicado. Em vez de classificar o problema de uma vez e seguir direto para a solução do nível escolhido, o uso mais defensável é percorrer os três níveis como um roteiro de perguntas antes de concluir qualquer coisa. No nível organizacional, existe uma meta ou estrutura que empurra duas áreas para direções opostas? No nível de processo, o fluxo de trabalho tem uma etapa que gera retrabalho ou perda de informação, independente de quem a executa? Só depois de percorrer os dois primeiros níveis faz sentido concluir que o problema está mesmo concentrado no executor, e que treinamento é uma resposta proporcional.

Essa é a mesma lógica que orienta a fase de Conceito do método CCPS: a pergunta sobre que comportamento precisa mudar vem antes da pergunta sobre que treinamento fazer, e o modelo de Rummler e Brache oferece um roteiro para não parar a investigação cedo demais, na primeira caixa que aparece pela frente.

O que muda na prática

Na prática, o efeito mais direto de levar este modelo a sério é atrasar de propósito a decisão de treinar. Antes de aprovar um programa motivado por queda de desempenho, vale mapear rapidamente se existe um processo cruzando áreas que poderia explicar boa parte do sintoma, e se existe uma meta ou estrutura organizacional empurrando o comportamento errado mesmo em quem está bem treinado. A dimensão de causa do diagnóstico da Arax existe justamente para essa checagem, ajudando a distinguir se a origem provável do problema está mais perto do indivíduo, do processo ou da estrutura antes de qualquer desenho de solução começar.

Segunda-feira: percorrer os três níveis antes de decidir

Antes de aprovar o próximo treinamento motivado por um problema de desempenho, escreva uma frase para cada um dos três níveis: o que, na organização, poderia estar empurrando esse resultado; o que, no processo que atravessa essa função, poderia estar gerando a falha antes mesmo de chegar à pessoa; e só então, o que, na pessoa, parece de fato ser lacuna de competência. Se as duas primeiras frases ficarem em branco porque ninguém investigou, é sinal de que a decisão de treinar foi tomada cedo demais.